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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Baudelaire: Epílogo para a segunda edição de As Flores do Mal

Caros,

Deixo aqui a tradução, feita pelo prof. Coli, da segunda parte do epílogo para a 2ª edição de As flores do mal, de Charles Baudelaire.

Um abraço a todos,
Letícia
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C. BAUDELAIRE
Epílogo para a 2ª edição de As flores do Mal

II

Tranquilo como um sábio e suave como um maldito,...
eu disse:
Eu te amo, oh! minha muito bela, oh! minha encantadora...
Quantas vezes...
Tuas devassidões sem sede e teus amores sem alma,
Teu gosto do infinito
Que em todos os lugares, no próprio mal, se proclama,
Tuas bombas, teus punhais, tuas vitórias, tuas festas,
Teus arrabaldes melancólicos,
Tuas casas de cómodos,
Teus jardins cheios de suspiros e de intrigas,
Teus templos vomitando a prece musicada,
Teus desesperos de criança, teus brinquedos de velha louca,
Teus desânimos;
E teus fogos de artifícios, erupções de alegria,
Que fazem o céu rir, mudo e tenebroso,
Teu vício venerável exposto sobre a seda,
E tua risível virtude, com olhar infeliz.
Doce, se ex­tasiando diante do luxo por ele desdobrado...
Teus princípios salvos e tuas leis conspurcadas,
Teus monu­mentos altivos onde as brumas se agarram,
Tuas cúpulas de metal que o sol incendeia,
Tuas rainhas de tea­tro com vozes sedutoras,
Teus sinos que tocam o alarme, teus canhões, orquestra ensurdecedora,
Teus cal­çamentos mágicos que se erguem qual fortalezas,
Teus oradorezinhos, com empolações barrocas,
Pregando o amor, e depois, teus esgotos cheios de sangue,
Se engolfando no Inferno como Orenocos,
Teus anjos, teus bufões novos com velhos andrajos,
Anjos vestidos de ouro, de púrpura e de jacinto,
Oh! vós, sede tes­temunha de que cumpri meu dever
Como um químico perfeito e como uma alma santa.
Pois de cada coisa extraí a quintessência,
Tu me deste tua lama e eu a transformei em ouro

domingo, 20 de março de 2011

Baudelaire e o Salão de 1846

Deixo abaixo trechos do texto do Salão de 1846, de Baudelaire, traduzido pelo prof. Coli.

Lembrando que não é todo o texto que está disponível aqui no blog. Este encontra-se na pasta da disciplina, no xerox da biblioteca.

Um abraço,
Letícia


"Baudelaire: Salão de 1846 – O que é o Romatismo?

São poucos hoje os que dariam a esta palavra um sentido real e positivo; eles ousariam no entanto afirmar que uma geração aceitou travar uma batalha de vários anos, por uma bandeira que não seja um símbolo?

Lembremos os distúrbios desses últimos tempos, e veremos que, se sobraram poucos românticos, é porque foram poucos os que encontraram o romantismo, mas todos o buscaram sincera e lealmente.

- Alguns só se dedicaram à escolha dos temas: não tinham o temperamento de seus temas. – Outros, acreditando numa sociedade católica, procuraram refletir o catolicismo em suas obras – Intitular-se romântico e olhar sistematicamente o passado é contradizer-se. – Estes, em nome dos românticos, blasfemaram contra os Gregos e os Romanos: ora, é possível produzir Romanos e Gregos antigos, quando o somos nós mesmos. – A verdade na arte e a cor local extraviaram muitos outros. O realismo existiu muito tempo antes dessa grande batalha, e aliás, compor uma tragédia ou um quadro para o Sr. Raou Rochette, é se expor a um desmentido do primeiro que chegar , se este sabe mais que o Sr. Raoul. Rochette.

O romantismo não está precisamente nem na escolha do tema, nem na verdade exata, mas na maneira de sentir.

Buscaram-no fora, quando só era possível encontrá-lo dentro.

Para mim, o romantismo é a expressão mais recente, a mais atual do belo.

Há tantas belezas quanto maneiras habituais de se buscar a felicidade.

A filosofia do progresso explica isto claramente; assim como houve tantos ideais quanto houve para os povos maneiras de se compreender a moral, o amor, a religião, etc., o romantismo não se constituirá em uma execução perfeita, mas numa concepção análoga à moral do século..

(...) É necessário, antes de tudo, conhecer os aspectos da natureza e as situações do homem, que os artistas do passado desdenharam ou não conheceram.

Quem diz romantismo, diz arte moderna, - quer dizer intimidade, espiritualidade, cor, aspiração em direção ao infinito, expressos por todos os meios que as artes contém.

(...)
(Delacroix)
Não é apenas a dor que ele (Delacroix) sabe exprimir melhor, mas sobretudo, - prodigioso mistério de sua pintura, - a dor moral! Essa melancolia brilha de com um morno esplendor, mesmo em sua cor, larga, simples, abundante em massas harmônicas, como as de todos os grandes coloristas, mas chorosa e profunda como uma melodia de Weber.

Cada um dos mestres antigos tem seu reino e seu apanágio, - que é freqüentemente obrigado a compartilhar com rivais ilustres. Rafael possui a forma, Rubens e Veronese a cor, Rubens e Michelangelo a imaginação do desenho. Uma porção do império restava, em que apenas Rembrandt havia feito algumas excursões, - o drama, - o drama vivo e natural, expresso frequentemente pela cor, mas sempre pelo gesto.

É por causa dessa qualidade inteiramente moderna e inteiramente nova que Delacroix é a última expressão do progresso em arte. Herdeiro da grande tradição, quer dizer, da amplidão, da nobreza e da pompa na composição, e digno sucessor dos velhos mestres, possui, além deles a maestria da dor, a paixão, o gesto! Está aí verdadeiramente o que se faz a importância de sua grandeza. – Com efeito, suponham que a bagagem de um desses ilustres velhos se perca, ele terá sempre seu análogo que poderá explicá-lo e fazê-lo adivinhar pelo pensamento do historiador. Excluam Delacroix, a grande cadeia da história se rompe e rui por terra."
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